DUAS NARRATIVAS FANTÁSTICAS: A DÓCIL E O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO – FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

Sinopse: Duas pequenas obras-primas, as narrativas aqui reunidas constituem excelente introdução ao universo de Dostoiévski. Se A dócil (também conhecida como Uma doce criatura) foi considerada “uma das mais vigorosas novelas do desespero na literatura mundial”, O sonho de um homem ridículo desenha a possibilidade de uma vida utópica em outro planeta.

Resenha/Opinião: Muito se engana aqueles que pegam essa obra nas obras e pensa que por ter poucas páginas, a narrativa será rasa e simples, todo e qualquer escrito do autor russo é um mergulho de cabeça em águas profundas da literatura clássica. Os dois contos são monólogos, o que força o leitor a ter atenção redobrada durante a leitura para entender todos os fatos, em alguns momentos precisei reler algumas partes (atitude bem comum durante a leitura de qualquer obra de Dostoiévski) para me localizar na história.
A dócil nos apresenta um casamento de um homem de 41 com uma moça de 16 anos de família humilde, acompanhamos o desenvolver do relacionamento dos dois personagens, baseado da parte do homem como uma tentativa de se autovangloriar perante a sociedade por estar se casando com uma moça de origem humilde, enquanto que por parte da moça a conveniência da união era para se ver livre de uma família abusiva. A narrativa gira em torno da tentativa de entendimento do narrador dos motivos que levaram sua esposa ao suicídio, para isso ele volta analisando todo o relacionamento que teve com ela, claro que narrando as situações do seu próprio ponto de vista, muitas das situações podem ser tendenciosas para exibir o narrador como bom moço, o que o leitor pode deduzir que nem sempre era verdade. Excelente leitura.
No conto O sonho de um homem ridículo temos também uma narrativa em primeira pessoa de um personagem de decide cometer o suicídio, há tempos uma obra não me toca tão profundamente e digo isso pelos conflitos existenciais que o personagem expõe na narrativa, a indiferença com que ele vê o mundo, indiferença à tudo e a todos, me fizerem refletir profundamente sobre essa narrativa. O autor decidido a cometer o ato de suicídio por ser indiferente à tudo e decide se tornar um nada mas é interrompido por uma menina que pede ajuda e diante da situação social da criança, o narrador apesar de tentar parecer indiferente a situação, não consegue, dessa forma o motivo principal da intenção de suicídio cai por terra, já que ele deixa de ser completamente indiferente a tudo e se vê em uma situação onde se importa com a criança.
Dostoiévski é conhecido por escrever obras que obrigam o leitor a pensar, podemos esperar de todas as obras do autor leituras profundas e cheias de significados, sou suspeita para falar porque amo obras que me fazem ter aquela ressaca literária pós leitura, se você também gosta dessa sensação deve explorar mais a fundo o autor russo e aqui está um bom ponto de partida.